Jovens e Apostas Desportivas em Portugal: Dados Alarmantes e Medidas de Proteção

Há um número que me obriga a escrever este artigo: entre 2023 e 2024, 31% dos novos registos nas plataformas de jogo online em Portugal pertenciam a jovens entre 18 e 24 anos. Quase um terço de todas as novas contas criadas no mercado regulado vieram de pessoas que, na sua maioria, ainda estão a construir independência financeira. A idade média de quem procura ajuda para problemas de jogo desceu de 30 anos para 20-23 anos. Isto não é uma tendência estatística abstrata — são jovens reais com problemas reais.
Como analista de apostas que também escreve sobre jogo responsável, sinto a obrigação de tratar este tema com a seriedade que merece. Sem moralismos, sem dramatizações — mas com os dados e a honestidade que o assunto exige.
O crescimento das apostas entre jovens — o que os dados mostram
Pedro Hubert, diretor do IAJ e psicólogo clínico, tem sido a voz mais consistente sobre esta realidade. Na sua declaração mais citada, afirmou que muitos jovens de 18 e 19 anos chegam com problemas gravíssimos de jogo, o que significa que não começaram nem ficaram dependentes num dia. A implicação é clara: o contacto com o jogo começa antes dos 18 anos, ainda que a conta formal só seja aberta na idade legal.
Os dados do SRIJ confirmam o peso dos jovens no mercado: 77% dos jogadores registados têm menos de 45 anos, e a faixa 25-34 representa 33,5% do total. Mas é a faixa 18-24 que mais cresce proporcionalmente nos novos registos. A idade média de quem procura ajuda para problemas de jogo desceu de 30 para 20-23 anos — uma queda de uma década em poucos anos.
Estes dados ganham outro contorno quando cruzados com o perfil de gastos. A maioria dos jogadores gasta até 50 euros por mês, mas os jovens apresentam um padrão diferente: menor frequência de apostas combinada com picos de gasto mais intensos. Não é o apostador que deposita 10 euros por semana — é o que deposita 50 euros de uma vez num sábado de jogos. Este padrão de binge é mais difícil de detetar pelos mecanismos tradicionais de proteção.
Hubert reforçou a gravidade ao notar que a descida na faixa etária dos pacientes é acompanhada por um aumento na severidade dos casos. Jovens de 20 anos com dívidas acumuladas, relações familiares destruídas e rendimento académico comprometido — casos que, há uma década, eram típicos de pacientes dez anos mais velhos.
Fatores de risco — publicidade, influencers e acessibilidade
O diretor do IAJ identificou a publicidade nas redes sociais como a sua maior preocupação, particularmente a feita por influencers e youtubers, onde a regulação e a ética ficam para lá do que é possível controlar. Esta formulação aponta para um problema estrutural: os canais de comunicação que mais impactam os jovens são os menos regulados.
Os cinco projetos de lei submetidos ao parlamento em setembro de 2025 procuram abordar este problema, com propostas que vão desde a restrição de publicidade em horários de maior audiência até à proibição de endorsements por influencers. Mas a publicidade tradicional — televisão, imprensa, painéis nos estádios — é apenas parte do problema. As redes sociais operam num território onde as fronteiras entre conteúdo, opinião e publicidade são difusas.
A acessibilidade amplifica o risco. Um jovem de 18 anos com um smartphone e um NIF pode criar conta e depositar em menos de dez minutos. Não precisa de se deslocar, não precisa de mostrar identificação a um funcionário, não há nenhuma interação humana que possa funcionar como filtro. A facilidade do processo é uma qualidade para o apostador adulto informado e um risco para o jovem vulnerável. O mercado movimentou mais de 23 mil milhões de euros em apostas em 2025, e uma parte crescente desse volume vem de utilizadores na faixa mais jovem.
Há também o fator social. Entre grupos de amigos, as apostas funcionam como moeda de pertença. Partilhar múltiplas no WhatsApp, comparar ganhos, discutir odds — cria-se uma dinâmica de grupo onde apostar é a norma e não apostar é a exceção. A pressão social, para jovens em fase de construção identitária, é um fator de risco que os dados estatísticos não captam mas que qualquer observador do setor reconhece.
Medidas de proteção existentes e propostas
As medidas de proteção em vigor são significativas mas insuficientes, na minha avaliação. A idade mínima de 18 anos é verificada no registo através do NIF e do documento de identificação. Os operadores licenciados são obrigados a exibir mensagens de jogo responsável. As ferramentas de limites e autoexclusão estão disponíveis. Mas nenhuma destas medidas atua na fase anterior ao registo — e é aí que a prevenção mais importa.
As propostas em discussão incluem restrições à publicidade direcionada a menores, proibição de patrocínios de casas de apostas em competições com audiência predominantemente jovem e programas de educação financeira nas escolas que incluam literacia sobre jogo. Nenhuma medida isolada resolve o problema — é necessária uma abordagem combinada que atue em múltiplos pontos.
O papel dos pais e educadores é frequentemente esquecido nestas discussões. A normalização do jogo na cultura desportiva — com casas de apostas nas camisolas, nas transmissões e nos feeds de redes sociais — torna difícil para um jovem distinguir entretenimento de risco. Conversar sobre apostas com a mesma naturalidade com que se conversa sobre álcool ou drogas é uma forma de proteção que não depende de legislação.
Para os jovens que já apostam, a mensagem é simples: configura limites desde o primeiro dia, trata as apostas como orçamento de entretenimento e pede ajuda ao primeiro sinal de descontrolo. O IAJ e a linha 1414 do ICAD existem para isso. Não há vergonha em pedir ajuda cedo — há vergonha em fingir que o problema não existe até que seja demasiado grande para ignorar.
Perguntas frequentes sobre jovens e apostas
Qual é a idade mínima para apostar online em Portugal?
A idade mínima legal para apostar online em Portugal é 18 anos. A verificação é feita no momento do registo através do NIF e do documento de identificação. Os operadores licenciados são obrigados a rejeitar registos de menores.
Um menor pode abrir conta numa casa de apostas usando documentos de outra pessoa?
Tecnicamente, o sistema de verificação cruza NIF com dados da Autoridade Tributária, o que dificulta a utilização de documentos alheios. Na prática, casos de jovens que usam dados de familiares mais velhos existem, embora constituam fraude e possam resultar no encerramento da conta e retenção do saldo.
Criado pela redação de «Sites Apostas Desportivas Portugal».